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Turismo e Patrimônio Cultural

     Entre muitas regiões do Brasil que se caracterizam pela riqueza do patrimônio cultural é necessário compreender a singularidade do Vale do Paraíba, pois é uma região viável para a consolidação de políticas e investimentos na preservação do patrimônio e na manutenção da identidade cultural. A globalização se consolidou em algumas cidades que ainda mantêm as tradições da cultura e a exuberância do meio ambiente. O Vale do Paraíba paulista caracteriza-se pela localização geográfica: é cercado pelas Serra da Mantiqueira e pela Serra do Mar, é uma região de elo entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na região, encontramos trilhas, cachoeiras, picos (por exemplo, o Pico da Mina em Queluz ) parques estaduais, áreas de proteção ambiental e um “mar de morros”, o que indica a diversidade do patrimônio natural. Muitos lugares não são ocupados pelas cidades, aliás, os municípios em que o processo de industrialização e modernização não se consolidaram, apresentam espaços propícios para o desenvolvimento do turismo de aventura ou rural. Instituições como o SEBRAE e ONGs têm contribuído com o desenvolvimento da ocupação ordenada da área rural, através de empreendimentos turísticos. O envolvimento da comunidade rural e de empresários que possuem terras, fazendas e produções agropecuárias, com o turismo, permitiu o aumento do fluxo de visitantes. Ao mesmo tempo, a consciência de que o meio ambiente precisa ser respeitado, tem despertado na sociedade o sentimento de preservação ambiental e de investimento em empreendimentos turísticos. Através do escritório de Guaratinguetá, o SEBRAE é um exemplo de incentivo ao turismo em Cunha, Bananal, Areias e Queluz, desenvolvendo programas específicos. Entendemos que as atividades em áreas rurais podem contribuir com a comunidade e com as políticas de preservação do patrimônio ambiental. Segundo Moletta, a atividade turística no meio rural “significa um meio para aumentar a sua renda mensal, de forma harmônica, valorizando sua propriedade e o seu estilo de vida”. Representa a oportunidade do homem urbano “resgatar suas origens culturais, o contato com a natureza e a valorização da cultura local” (MOLETTA, 1999. p. 9). Obviamente, esse tipo de atividade pode trazer impactos negativos para o patrimônio ambiental e para a cultura do homem do campo. A mudança de hábitos, a degradação do local, a descaracterização da cultura e o excesso de lixo, são fatores que inviabilizam o desenvolvimento sustentável. O envolvimento da comunidade rural, de instituições compromissadas com o meio ambiente e com a cultura são fundamentais para que o impactos não acarretem transformações significativas. Como herança cultural temos as festas, danças e a culinária. Celebrações como a Festa do Divino e de São Benedito marcam o calendário nacional e são intensamente comemorados no Vale do Paraíba. As manifestações ocorrem entre um elo de tradições e novos comportamentos, típicos da dinâmica cultural da modernidade. A cultura e a história regional são marcada pelas “Fazendas do Café” e pelas Festas profanas e sagradas, em que os barões, escravos, comerciantes, padres, tropeiros, viajantes, advogados, homens pobres e livres, entre outros, foram agentes da história e representam diversidade e identidade cultural. As fazendas do café, símbolos do poder e da economia do século XIX, representam na atualidade, uma oportunidade para seus proprietários, pois podem transformá-las em locais turísticos. É o que ocorre em fazendas como Boa Vista e Três Barras em Bananal, Paineiras em São Luís do Paraitinga, Pasto Grande em Taubaté, Fazenda Amarela em Lorena ou Boa Vista em Roseira (MAIA, 2000). São patrimônios que se revitalizam para abrigar hotéis ou locais para visitação. A transformação desses locais representam uma alternativa para os proprietários evitarem “falência do local”; no sentido de que as demais atividades econômicas ( pecuária e a produção de leite) não viabilizam os custos de manutenção e impedem os investimentos de revitalização do patrimônio. Em Barra do Piraí, (Rio de Janeiro), através da Fazenda Ponte Alta (os proprietários recebem os turistas com vestimentas e música do século XIX), e em Carandaí (Minas Gerais), na Fazenda Estalagem ( preservação da mata e das construções), as atitudes dos proprietários vão no mesmo sentido. Observa-se que os investimentos nas fazendas, realizadas com pesquisas e pessoal competente e comprometido, consolidam a revitalização e possibilitam a utilização adequada do patrimônio. Assim, o Vale do Paraíba, necessita de cidades que respeitem os espaços urbanos e públicos, pois existem cidades como São José dos Campos e Jacareí que se industrializaram e se modernizaram e ainda mantêm o patrimônio cultural e ambiental. Do outro lado, temos exemplos de cidades como Cunha, Silveiras, Areias, Queluz, São José do Barreiro, Arapeí, Bananal e São Luís do Paraitinga, que possuem um legado ambiental e cultural que simbolizam a riqueza e a originalidade do Vale do Paraíba, como região em que o patrimônio necessita de cuidado e profissionais competentes.


Patrimônio e Identidade

    A preservação do patrimônio tem entre suas funções o papel de realizar “a continuidade cultural”, ser o elo entre o passado e o presente e nos permite conhecer a tradição, a cultura, e até mesmo quem somos, de onde viemos. Desperta o sentimento de identidade. Margarita Barreto defende a “recriação de espaços revitalizados”, como um dos fatores que podem “desencadear o processo de identificação do cidadão com sua história e cultura (Barreto, 2000. p.44). No século XX a sensação da fragmentação da identidade, da perda das referências culturais, despertou no homem o desejo de “retorno a algo perdido”, ou seja, a necessidade de buscar manifestações culturais que pertencem a seu passado vivo, a comportamentos que deixaram de ser comuns, pois o frenesi contemporâneo exige atitudes da sociedade globalizada. Pertencer a uma identidade cultural, significa descobrir-se, ser diferente dos comportamentos globais. Por isso, patrimônios culturais intangíveis como as formas de manifestações lingüísticas, de relacionamento, de trabalho com a terra e a tipificidade da culinária, o cultivo e o preparo do vinho, os passos das danças tornaram-se patrimônios da cultura e demonstram a riqueza da relação entre identidade e diversidade da cultura brasileira. O Centro Unisal, o Instituto de Estudos Valeparaibanos, os historiadores, arquitetos, os jornalistas, os antropólogos, os arquitetos e os jornalistas, entre outros, demonstram-se preocupados com o uso do patrimônio, com a descaracterização de casarões, fazendas e outras construções de caráter histórico e com a banalização de rituais, danças e comportamentos, por sua exposição e uso indevido. Podemos citar como exemplo a apropriação pelos agentes de turismo dos bens culturais, que podem se tornar espetáculos, shows e renderem-se ao apelo capitalista, deixando de serem elementos de uma tradição, de uma cultura ou monumentos que representam determinado momento histórico, para se tornarem exclusivamente atrativos turísticos, perdendo a referência com a comunidade e com história. Concordo com Barreto quando afirma que a revitalização do patrimônio tem contribuído para a: “recuperação de identidades locais ameaçadas em todas as partes do mundo pelo avanço de uma única cultura hegemônica, que se impôs nas últimas décadas na música, no vestuário, na alimentação, nas formas de lazer e de consumo” (Barreto.2000, p.44) A dinâmica dos tempos nos revela que as culturas não se congelam, adaptam-se. As trocas culturais são comuns. Por outro lado, as comunidades que se organizam para revelar seu patrimônio, que assumem sua identidade e que recuperam formas tradicionais de culinária, danças e festas estão tendo oportunidade de revelar para a sociedade globalizada suas diferenças, peculiaridades e modos de comportamento. Está, justamente, no ser diferente que reside a geração de renda, emprego e visualização de que a tradição cultural deve ser encarada como identidade da comunidade, fazendo com que as pessoas não necessitem ser como todos são. Não tenho dúvida de que a cultura globalizada, de que o comportamento tipicamente consumista e capitalista geram impactos, interferem nos comportamentos tradicionais, transforma bens culturais em produtos de consumo. Por isso, a revitalização e os estudos sobre as formas de uso e interação com o patrimônio devem ter profissionais capazes de pensar nestas questões, de apontarem alternativas. As pesquisas e debates devem ser multidisciplinares e terem como referência a comunidade e seu patrimônio. Barreto escreve sobre os equívocos da revitalização; defende, porém, estudos que proporcionem a manutenção da identidade. A recuperação da memória fortalece a cidadania e a valorização do patrimônio. Barreto afirma que: “Embora todos os problemas antes mencionados sobre a transformação da história e do patrimônio em bem de consumo e o fato real de que há uma ressignificação nesse processo, acredita-se que é sempre uma melhor opção do que o esquecimento da história, do que a marginalização de bairros ou do que a derrubada de prédios por causa da especulação imobiliária” (Barreto. 2000, p.51).


Patrimônio e Comunidade

    Ao pensarmos na revitalização do patrimônio, temos que necessariamente discutir, os mecanismos de tombamento, os recursos financeiros e humanos disponíveis e as alternativas de uso. Acima de tudo, o processo de revitalização tem que ser benéfico para a sociedade, ao transformar o lugar em um espaço agradável para os cidadãos e para os turistas. Deve, ainda, respeitar as características culturais da população e da arquitetura das construções, não podendo distorcer o seu significado artístico. O uso adequado do patrimônio tem que exercer duas funções: garantir o respeito à cultura, inclusive no que se refere aos estilos artísticos e garantir o significado histórico e a comunidade, que não pode ser excluída do processo de decisão sobre o uso do patrimônio ou mesmo dos benefícios econômicos advindos da atividade turística. O desenvolvimento tem de representar a inserção social, pois entendo que a participação é essencial para que os impactos não degradem o lugar e os confrontos entre comunidade e turistas não se estabeleçam; além disso, o lugar deve gerar empregos para a comunidade, oportunidade de comercializazação do artesanato e de prestação de serviços. Paralelamente, as escolas necessitam fortalecer os estudos sobre a história e cultura local. Ulpiano Meneses discute de forma consistente a questão do uso da cultura. Coloca como temas para reflexão problemas como a cenarização das cidades, o fetichismo da cultura, o consumo do bem cultural, o desenraizamento dos turistas, ou seja, põe em debate o tipo de turismo que praticamos. Em sua análise, as alternativas para o desenvolvimento do lugar através do turismo não são analisadas. Entendo que são questões sérias que devem compor a pauta das discussão sobre os empreendimentos turísticos. Mas temos que levar em consideração experiências mundiais: a revitalização do patrimônio tem contribuído para o desenvolvimento dos lugares; manifestações culturais estão se fortalecendo e as comunidades percebem que a riqueza da identidade representa um impulso à continuidade da herança cultural e a geração de emprego e renda.

BARRETO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000.

MAIA, Thereza Regina de Camargo. O Vale Paulista do Rio Paraíba: história, geografia, fauna, flora, folclore e cidades. Aparecida: Santuário, 2000.

MOLETTA, Vania Florentino. Turismo rural. Porto Alegre: SEBRAE/RS, 1999.

PIRES, Mario Jorge. Lazer, turismo e cultura. São Paulo: Manole, 2001.

RODRIGUES, Adyr Balastreri (Org.) Turismo: desenvolvimento local. São Paulo: Hucitec, 1997.

MENEZES, Ulpiano T. Bezzerra. Os “usos culturais” da cultura. Contribuição para uma abordagem crítica das práticas e políticas culturais. In: YÁZIGI, Eduardo, CARLOS, Ana Fabri Alessandri, CRUZ, Rita de Cássia Ariza da. Turismo: espaço, paisagem e cultura. São Paulo, Hucitec, 1999.

 

 

 

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